Níveis de testosterona e hipertrofia: a verdade por trás do hype

Desde que você seja saudável e seus níveis de testosterona estejam dentro da referência, você poderá ter hipertrofia. Porém, não é possível aplicar as mesmas regras para “naturais” e usuários de testosterona, criando prisões imaginárias.

Um estudo importante de Morton et al. (2018) acompanhou o treino de 49 homens por 12 semanas. No fim do estudo, os participantes que tinham mais receptores androgênicos tiveram mais hipertrofia, independente dos níveis de testosterona.

Por outro lado, o famoso estudo de Bhasin et al. (2001),  fez 61 homens saudáveis usarem doses de testosterona entre 25 a 600 mg por semana. Quanto maior a dose, maiores forem os resultados, onde 600 mg de testosterona gerou aumento de massa magra mesmo sem treino.

Estes são apenas dois exemplos em um oceano de evidências mostrando que não é possível simplificar o tema.

Enfim, até o final do texto, você saberá quem realmente precisa se preocupar com testosterona e o que o hype ofusca.

Testosterona e hipertrofia: o que as pessoas não entendem

Hipertrofia não depende apenas de testosterona e mais testosterona, não é uma garantia absoluta de melhoras estéticas. Existe uma diferença entre aumentar peso, massa muscular e ter um físico incrível.

Para que ocorram as mudanças que as pessoas esperam do hormônio, vários outros fatores entram em jogo:

Testosterona livre: A maior parte da testosterona está ligada a proteínas transportadores de hormônios sexuais, como a SHBG, o que a torna inativa. Apenas a testosterona biodisponível é usada pelo corpo.

Receptores: Os efeitos do hormônio são exercidos somente quando ocorre a ligação com o receptor. Este fator é parcialmente genético e fortemente modulado pelo treino resistido.

Equilíbrio entre outros hormônios: Testosterona pode ser convertida em estrogênio e DHT. Genética e vários fatores podem interferir nisso, fazendo com que mais testosterona possa causar mais problemas.

Fatores externos: Quando fatores como, hábitos saudáveis, treino, alimentação, são negligenciados, eles podem afetar o equilíbrio de vários hormônios. Porém, essa ordem costuma ser invertida, a culpa se torna dos hormônios e os erros são mantidos.

O fato de fisiculturistas profissionais terem a genética exigida pelo esporte e ajuda de altas doses de esteroides anabolizantes, ainda seguirem uma rotina extremamente rígida, já explica a realidade. Mas essa versão não é conveniente e impede a terceirização da culpa.

A falsa promessa do aumento natural de testosterona testosterona

Oscilações e aumento dentro dos níveis naturais de testosterona, não terá um impacto gigantesco que as pessoas imaginam.

A testosterona é medida em nanogramas por decilitro (ng/dL), e a faixa normal para homens varia entre cerca de 300 e 900 (Travison et al. 2017) e realisticamente 10 a 60 para mulheres (Braunstein et al. 2011).

  • Uso de testosterona injetável pode facilmente aumentar os níveis para 2.000 a 5.000 ng/dL e causar mudanças drásticas.
  • Métodos naturais para aumentar a testosterona podem fazer os níveis oscilarem dentro da referência.
  • Porém, em pessoas saudáveis, essas oscilações dentro da referência não causam mudanças significativas.

Na prática, para pessoas que já possuem níveis dentro da referência, aumento natural de testosterona costuma ser um desperdício de tempo e dinheiro.

Esteroides anabolizantes mudam as regras do jogo (com ressalvas)

A relação dose dependente de hormônios anabólicos, especialmente a testosterona, e crescimento muscular é bem estabelecida na ciência.

Porém, existem ressalvas e a relação não é tão simples quanto parece.

Por exemplo, elevar a testosterona acima dos níveis de referência definitivamente aumentará o ganho de massa muscular, mas nas condições erradas, como:

  • Facilidade para converter estrogênio.
  • Poucos receptores.
  • Rotina desalinhada ao objetivo.

Vai ter mais problemas, visto que o corpo inteiro possui receptores androgênicos. Se os músculos não usam os hormônios, seus órgãos vitais e outros tecidos poderão usá-los.

É por isso que vemos usuários recreativos de esteroides com proporções diferentes entre hipertrofia e efeitos colaterais.

O papel do viés de confirmação: a origem do hype

Essa disparidade entre os vídeos virais e a realidade da maioria das pessoas ocorre devido a um forte viés de confirmação.

A realidade é que indivíduos que têm experiências ruins não tem muita recompensa em mostrar isso publicamente.

Os sinais que chegam ao público geral costumam ser principalmente os positivos e os extremos. Esses sinais confirmam justamente o que a maioria já acredita.

A importância fundamental dos exames e acompanhamento médico

Problemas hormonais não podem ser diagnosticados pela internet, usar seu influenciador preferido como referência ou baseado no instinto.

Para saber seu estado atual, procure um médico e faça exames. Testosterona é fundamental, primeiro, para a saúde.

Não ter bons resultados na musculação pode ser o menor dos seus problemas se os níveis de testosterona estiverem abaixo da referência, especialmente acompanhados de sintomas, como depressão e disfunção erétil.

Além disso, outros problemas de saúde podem afetar a testosterona e, em muitos casos, somente diagnóstico médico pode ajudar. Não brinque com sua saúde.

FAQ: Perguntas mais frequentes

Tenho 400 a 500 ng/dl de testosterona total, isso está atrapalhando meus resultados?

Você ainda está dentro da faixa saudável e há muitos fatores, como treino, dieta, sono, estilo de vida, a serem checados antes de se preocupar com um resultado ainda dentro do normal.

Suplementos para aumentar a testosterona fazem alguma diferença?

Para pessoas saudáveis e com tem níveis normais, raramente fazem diferença. Use esses recursos na dieta ou outros suplementos, como proteína em pó.

Quais alimentos ajudam na produção natural?

Não exatamente uma questão de incluir alimentos específicos, apesar de alguns possuírem propriedades que ajudam, mas, sim, ter um plano alimentar saudável e de acordo com seu objetivo.

Mulheres também devem se preocupar com a testosterona para ganhar músculos?

As mesmas “regras” valem para mulheres, porém essa parece ser uma preocupação majoritariamente masculina. Por isso dados e números costumam ser baseados em homens adultos.

O que costuma diminuir a produção natural de testosterona?

Basicamente, os hábitos ruins comuns que fazem mal para a saúde, como estilo de vida ruim, sono de baixa qualidade, alimentação ruim, inatividade física. Porém, o pior de todos eles, sem dúvida, é obesidade.

Referências
  • MORTON, R. W. et al. Muscle Androgen Receptor Content but Not Systemic Hormones Is Associated With Resistance Training-Induced Skeletal Muscle Hypertrophy in Healthy, Young Men. Frontiers in Physiology, [s. l.], v. 9, p. 1373, 9 out. 2018. DOI: 10.3389/fphys.2018.01373.
  • BHASIN, S. et al. The Effects of Supraphysiologic Doses of Testosterone on Muscle Size and Strength in Normal Men. The New England Journal of Medicine, [s. l.], v. 335, n. 1, p. 1-7, 4 jul. 1996. DOI: 10.1056/NEJM199607043350101.
  • TRAVISON, T. G. et al. Harmonized Reference Ranges for Circulating Testosterone Levels in Men of Four Cohort Studies in the United States and Europe. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, [s. l.], v. 102, n. 4, p. 1161-1173, 1 abr. 2017. DOI: 10.1210/jc.2016-2935.
  • BRAUNSTEIN, G. D. et al. Testosterone Reference Ranges in Normally Cycling Healthy Premenopausal Women. The Journal of Sexual Medicine, [s. l.], v. 8, n. 10, p. 2924-2934, out. 2011. DOI: 10.1111/j.1743-6109.2011.02380.x.