Cerca de 25% dos usuários de esteroides recreativos já tiveram contato com insulina (Ibanez et al., 2014Estudo científico — abre em uma nova aba.).
Estima-se que esse número seja ainda maior, mas muitos omitem o uso ou dosagens devido ao estigma relacionado ao perigo envolvendo o uso da substância.
Em maio de 2026, a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, 22 anos, em São Paulo, voltou a trazer o tema à tona.
Este texto explica por que a substância é usada, apesar dos riscos.
⚠️ Aviso: Este artigo aborda o uso de insulina fora de contexto clínico, uma prática extremamente arriscadas. As informações contidas no texto têm caráter exclusivamente educativo e não substituem orientações médicas.
O que é insulina e por que ela é usada na musculação e fisiculturismo
A insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas em resposta ao aumento da glicose sanguínea após refeições.

Sua função primária é controlar os níveis de açúcar no sangue, facilitando a entrada de glicose nas células para uso energético imediato ou armazenamento como glicogênio.
Porém, a ação do hormônio nos músculos vai além do controle glicêmico.
Captação de nutrientes e síntese proteica
Quando a insulina se liga aos seus receptores nas células musculares, uma cascata de reações ocorrem, facilitando a captação de glicose e estimulando a síntese de glicogênio, o combustível estocado no músculo.
Além da glicose, a insulina facilita a captação de aminoácidos e ativa a via mTOREstudo científico — abre em uma nova aba., o que estimula a síntese proteica.
Ao mesmo tempo, o hormônio impede processos que degradam a própria massa muscular (gera catabolismo) para realizar outras funções no organismo.
Efeito sinérgico com outros hormônios
A sinergia da insulina, especialmente com altas doses de esteroides anabolizantes e GH, potencializa o efeito de cada substância de forma superior quando comparado ao uso isolado de cada uma delas.
O uso de GH estimula a produção de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina), que tem potente ação anabólica. O uso combinado com insulina amplia a janela de ação de IGF-1.
O abuso frequente de GH por fisiculturistas pode causar hiperglicemia e diabetes, mas a insulina extra ajuda a controlar os níveis de glicose e amenizar parte desses efeitos colaterais.
Por fim, esteroides anabolizantes aumentam o anabolismo através de inúmeras vias e uma delas ocorre ao aumentar a sensibilidade das células musculares à ação da insulina.
Ferramenta para aumentar o aporte de calorias
Atletas pesados podem ingerir 6000+ calorias por dia e o problema não está apenas na dificuldade em ingerir tudo isso, mas fazer o organismo absorver toda a comida e enviar para o lugar correto (os músculos).
Depender da produção natural do hormônio nem sempre é uma opção, e o uso exógeno de insulina alivia o trabalho do pâncreas e aumenta a quantidade de nutrientes que poderão ser enviados para os músculos.
Tipos de insulina usadas no fisiculturismo
Dentre os 7 diferentes tipos de insulina, as mais usadas na musculação e fisiculturismo são a de ação ultrarrápida e ação prolongada.
Ambas possuem a mesma finalidade, mas com tempo de ação, duração do efeito e riscos, diferentes.
Insulina ultrarrápida (lispro, aspart, glulisina)
Age no organismo em cerca de 15 minutos e costuma ser usada estrategicamente em momentos onde os músculos estão mais sensíveis à absorção de nutrientes, como no pós-treino.
Possui uma margem de erro baixíssima, tanto em termos de dosagem como no tempo para se alimentar.
Insulina de ação prolongada (Lantus, Basaglar)
Age em uma janela de 2 a 4 horas e costuma ser usada em dietas com grande aporte de calorias.
Apesar de possuir uma ação mais parecida com a insulina produzida naturalmente, ela não é livre de riscos.
Insulinas de ação prolongadas podem provocar picos no decorrer do dia e se você não estiver devidamente alimentado quando isso acontecer, os riscos são basicamente os mesmos.
Os dados sobre tempo para início de ação foram retirados diretamente do site do CDCEstudo científico — abre em uma nova aba., o principal órgão de controle de doenças dos Estados Unidos.
A realidade dos protocolos de uso de insulina encontrados na internet
Protocolos que rondam a internet passam uma falsa sensação de segurança ao sugerir equações que passam a impressão de que há um método científico para usar insulina. Não há.
| O que os protocolos sugerem | O que eles ignoram |
|---|---|
| Uma proporção fixa de carboidrato para cada unidade administrada | Que a sensibilidade à insulina varia de pessoa para pessoa |
| Uma dose “de iniciante” supostamente segura | Treino, dieta, estresse, estilo de vida e uso de outras substâncias em conjunto |
| Previsibilidade baseada em relatos de internet | Não é possível saber a experiência real de quem está relatando |
| Uma equação simples para calibrar a dose correta | Insulina possui a menor margem de erro dentre todos os ergogênicos |
| Existência de uma fórmula universal | Isso pode funcionar para outras substâncias, não para a insulina |
Não existe uso seguro de insulina em pessoas saudáveis e a margem entre “não senti diferença” e “usei demais e estou passando mal” é estreita. A passagem entre uma e outra pode ocorrer em questão de minutos.
Uma dose segura numa semana pode não ser na seguinte. Essa é outra razão para o uso baseado em fórmulas ser uma armadilha.
É válido alertar que muitos depoimentos sugerindo que “o perigo é exagerado” vem de quem usou por pouco tempo e superestima sua experiência, é um “abuser” ou possui apenas conhecimento teórico
Fisiculturistas profissionais de elite, a população que realmente possui experiência real de uso, não têm nada a ganhar falando abertamente sobre isso (e não há qualquer demérito nisso).
Também existem casos onde o relato negativo nunca é feito, pois o usuário não está vivo para poder alertar.
O que sobra, então, é um acervo enviesado mostrando como usar uma substância extremamente perigosa, volátil e que deveria estar longe das mãos do usuário recreativo de hormônios.
Principais riscos e efeitos colaterais: por que ela é tão perigosa
A insulina tem perfil de risco e efeitos colaterais maior do que praticamente todos os outros recursos ergogênicos usados por fisiculturistas.
A diferença não é só na magnitude, mas na velocidade com que eles podem acontecer.
Hipoglicemia severa
A liberação natural do hormônio pelo organismo é lenta e controlada, enquanto o uso exógeno passa por cima de qualquer regra e pode derrubar os níveis de glicoses, independente da necessidade ou situação.
Esta característica costuma gerar quedas abruptas de glicose que, em alguns casos, resulta em hipoglicemia grave e progrede em questão de minutos para problemas mais sérios.
Muitas pessoas ainda pensam que os perigos da insulina são exagerados e toda a questão é impulsionada por sensacionalismo.
A ciência tem uma teoria diferente: relatos documentados na literaturaEstudo científico — abre em uma nova aba. mostram que mais de 50% de usuários de esteroides que utilizaram insulina reportam pelo menos um evento de hipoglicemia.
Curiosamente, a maioria dos usuários está ciente dos riscos, mas decide usar mesmo assim e, em muitos casos, o uso é omitido.
Logo, quando há uma situação de emergência, não é incomum que a pessoa esteja sozinha e não possa ser socorrida a tempo.
Substância com a menor margem para erros
O menor erro na dosagem da insulina já é suficiente para causar problemas graves.
Isso aliado ao fato que o usuário precisa comer no tempo correto, oferece uma janela muito estreita para erros.
Para “ajudar”, a dosagem do hormônio é medida através de UIs (unidade internacional) – um sistema de medida muito pequeno e propenso a erros.

Como as doses de insulina são baixas e o sistema de medida é pequeno, isso costuma causar erros por falta de atenção ou de conhecimento.
Risco de problemas cardíacos
Durante a hipoglicemia, altos níveis de insulina levam o potássio do sangue para as célulasEstudo científico — abre em uma nova aba., causando baixa concentração de um dos minerais mais importantes para o controle dos batimentos cardíacos.
Dependendo do grau da hipoglicemia e da saúde cardíaca do usuário, isso pode ser o suficiente para causar uma parada cardíaca.
Ganho de gordura excessivo
O mesmo mecanismo que direciona nutrientes para os músculos pode direcionar o excesso de nutrientes para as reservas de gordura.
Basicamente, o uso de insulina (do ponto de vista ergogênico) depende de estratégias avançadas de treino e dieta, para atletas que já estão usando outras substâncias e possuem uma grande quantidade de massa muscular.
A esmagadora maioria das pessoas que praticam musculação não se encaixam nesses requisitos e o uso de insulina resultará em um ganho astronômico de gordura (e não de massa muscular).
FAQ: Perguntas frequentes
A insulina de ação rápida, por exemplo, começa a agir 15-30 minutos após o uso, aumentando a captação de glicose e aminoácidos pelo músculo. Caso o usuário não consuma carboidratos imediatamente, haverá hipoglicemia.
O tipo mais comum é a de ação ultrarrápida (lispro, aspart) e de ação rápida (insulina regular). A velocidade de ação é útil para ser usada estrategicamente no pós-treino, quando os músculos estão mais sensíveis ao hormônio.
Sim. O corpo não produzirá insulina, se já existe insulina suficiente circulando. Uso crônico ainda pode causar condições como pré-diabetes.
Tremores, sudorese fria, palidez, taquicardia e fome súbita intensa. Se mesmo ingerindo carboidratos e repetindo o processo, os sintomas continuam, esse é o principal sinal de que algo pior pode acontecer.
- Ibanez SD, Kersey RD, Brown LE, Tsang KKW (2014) Non-Therapeutic Insulin Use in Resistance-Trained Men. J Athl Enhancement 3:3. doi:10.4172/2324-9080.1000151.
- Heidet, Matthieu & Wahab, Abdel & Ebadi, Vahid & Cogne, Yann & Chollet-Xémard, Charlotte & Khellaf, Mehdi. (2018). Severe Hypoglycemia Due to Cryptic Insulin Use in a Bodybuilder. The Journal of Emergency Medicine. 56. doi: 10.1016/j.jemermed.2018.10.030.
- Christensen, T. F., Bækgaard, M., Dideriksen, J. L., Steimle, K., Mogensen, M., Kildegaard, J., Struijk, J., & Hejlesen, O. (2009). A Physiological Model of the Effect of Hypoglycemia on Plasma Potassium. Journal of Diabetes Science and Technology, 3, 887 – 894. Doi: 10.1177/193229680900300436.