Ganhar massa muscular que você perdeu costuma ser mais rápido do que ganhar pela primeira vez. Isso é conhecido como memória muscular.

Fazer musculação deixa uma história no seu corpo em forma de aprendizado motor e adaptação celular. Ao parar de treinar e voltar depois de um tempo, você dificilmente voltará do zero.
Por exemplo, fazer musculação gera um aumento de células satélites nos músculos que, em resposta ao treino, podem se fundir às fibras musculares já existentes, acrescentando núcleos que ajudam a sustentar o crescimento e o reparo dessas fibras (Blaauw & Reggiani 2014).
As células satélites não desaparecem se você teve resultados sólidos e precisou parar de treinar, também não há período definido na ciência para elas desaparecerem mesmo meses e até anos longe da academia.
Isso é só o começo, a memória muscular vai além e saber tirar proveito do fenômeno pode trazer tranquilidade quando as prioridades da vida forçarem você a se afastar dos treinos, mas basta um erro para colocar tudo a perder. Neste texto, você entenderá o por quê.
Memória muscular vai além do músculo
A memória muscular é um termo usado para descrever a capacidade do corpo de construir força, massa muscular e coordenação de forma acelerada após um período afastado do treino.
No entanto, a memória não está somente no músculo, o cérebro e o sistema nervoso também mantém registros.
Tenho certeza que você já ouviu a frase “é igual andar de bicicleta” fazendo alusão ao fato que depois de aprender a se equilibrar em duas rodas, você nunca mais esquece.
Pois é. Isso é verdadeiro para bicicletas como para qualquer habilidade aprendida.
Como fazer musculação vai além de mover a carga do ponto A ao ponto B, envolvendo conexão mente-músculo para conseguir recrutar os músculos corretos durante exercícios (especialmente compostos), esse aprendizado motor costuma ficar com você indefinidamente.
Logo, ao se afastar da musculação e voltar a treinar, você não passará pela mesma jornada que alguém treinando pela primeira vez e isso certamente fará você progredir mais rápido agora.
Além disso, um estudo muito importante (Seaborne et al. 2018) mostrou que a hipertrofia pode alterar alguns marcadores no DNA que não são perdidos na ausência de treino e podem reter certas propriedades que facilitam um estado previamente conquistado.
Sim, de maneira prática, até seu DNA se lembra de como é ter mais massa muscular e alinhará as coisas para voltar mais rápido ao estado anterior.
Memória muscular na prática (sua real utilidade)
Bacana, você sabe que algumas mudanças celulares, de aprendizado motor e epigenéticas (do “dna”) ocorrem em resposta ao treino e podem ser mantidas, mas qual a utilidade prática desse conhecimento?
Simples. Se a rotina de treino se tornar algo inconstante na sua vida, por causa de estudo, trabalho ou qualquer outra prioridade – e isso eventualmente acontece com todos nós -, é muito comum usar a carta do “por que continuar treinando, se quando eu parar, eu vou perder tudo”.
Você não vai perder tudo e esse desculpa não cola ao entender como a memória funciona de verdade (mais sobre isso logo a frente).
Além disso, a musculação deixa de ser uma obrigação inconveniente em certos momentos da nossa vida. A dura realidade é que a vida pode tomar rumos que afastam você do treino, mesmo que temporariamente. E está tudo bem.
Se você não vive da musculação, você pode e deve focar em suas prioridades quando chegar a hora. Essas prioridades muitas vezes darão os meios para você treinar melhor e com todo o suporte necessário no futuro.
Não é possível ter memória de algo que seus músculos nunca vivenciaram
Aqui é onde a maioria das pessoas erra, seja por confundir o conceito ou deturpá-lo para justificar maus hábitos.
Criar memória muscular exige períodos de treino ininterrupto
As adaptações relacionadas à hipertrofia e o aprendizado motor levam meses (seis ou mais, sendo otimista).
Qual o problema?
Algumas pessoas poderão confundir as coisas e pensar que memória muscular é um passa livre para rotinas com baixa regularidade; o famoso “eu treino há 5 anos”, mas na verdade nunca houve 6 meses de treino sem parar e voltar durante 5 anos.
Basicamente, se uma pessoa nunca treinou por tempo suficiente para permitir que as adaptações e o aprendizado ocorram, não é possível contar com a memória muscular quando chegar a hora de ficar um tempo afastado.
Tendões e ligamentos não são músculos
Apesar dos estudos sobre guardar adaptações do treino depois de parar focarem mais nos músculos, há evidências de que tendões e ligamentos também voltam a um estado previamente obtido de maneira mais rápida.
Contudo, nos primeiros dias de volta ao treino, ainda não houve tempo suficiente para qualquer fortalecimento ocorrer. Logo, tendões e ligamentos estarão mais suscetíveis a lesões.
Por exemplo: alguns tendões (Kubo et al. 2012) podem enfraquecer drasticamente com um mês de inatividade física e estão muito mais vulneráveis a lesões.
Como muitas pessoas voltam pensando que vão continuar de onde pararam, elas tentam usar as mesmas cargas e volume de antes.
Esta é a receita perfeita para causar uma lesão que pode afastar um indivíduo por ainda mais tempo dos treinos.
Leitura complementar: Como voltar a treinar depois de um tempo parado