Todos sabem dos supostos atributos do GH, basta abrir qualquer revistinha dessas e ler a lista. Mas afinal de contas o que realmente é comprovado sobre o GH? Será que os achados científicos apóiam a bajulação em torno deste hormônio? E (a pergunta de sempre) será que vale a pena pagar o preço?

Antes de iniciarmos o estudo, recomendo cuidado na interpretação das pesquisas, sabemos que o hormônio do crescimento pode levar a mudanças em diversos tecidos, incluindo muscular, articular e ósseo. Quando se verifica um aumento na massa magra, significa que houve aumento em algum dos componentes do seu corpo que não seja gordura, incluindo aí todos as estruturas antes referidas, portanto aumento de massa magra não significa necessariamente aumento de massa muscular. Quanto a este equívoco (talvez propositalmente induzido pela industrias farmacêuticas) o médico Michael Mooney, respeitada autoridade em preservação muscular e HIV, desafiou uma empresa produtora de GH:

“Ressalto que o único estudo de Serotostim (nome comercial do GH da empresa) que incluiu uma avaliação crítica das mudanças no tecido muscular usando MRI (ressonância magnética) não mostrou nenhuma alteração. Todos os demais usaram análise de impedância bioelétrica, a qual mede a massa corporal magra, mas não pode medir com segurança as mudanças musculares. Na Terceira Conferência Internacional de Nutrição e Infecção por HIV, em Cannes, França, abril de 1999, Donald Kotler, médico de St. Lukes-Roosevelt Medical Center de Nova York, reportou os resultados de um estudo de 6 meses com o hormônio do crescimento Serostim. Os resultados do Dr. Kotler mostraram que 6 mg de Serostim por dia não promoveram aumento significativo no tecido muscular durante as 12 semanas em que os dados de repetidas MRI de 8 pacientes estavam disponíveis. Muitos outros estudos com diversas populações HIV-negativas também não mostraram melhoras aparentes no tecido muscular”

Feita esta oportuna observação continuaremos com o que interessa. A partir de 1985, com a facilidade de se obter o GH sinteticamente através da recombinação do DNA humano, cientistas do mundo todo dedicaram inúmeras pesquisas ao uso terapêutico deste peptídeo, principalmente em idosos e HIV-positivos.

IDOSOS

Inicialmente os experimentos foram direcionados a pacientes debilitados. Como em 1999, quando KIM et al observaram os efeitos lipolíticos e anabólicos do tratamento com hormônio do crescimento mesmo com restrição calórica, os pesquisadores também analisaram as mudanças na secreção de insulina e GH. Com uma dieta de 25 kcal/kg e 1,2 g/kg de proteína por dia, os pacientes recebiam ou hormônio do crescimento ou placebo. O grupo experimental obteve perda de peso 1,6 vezes maior que o controle, o qual perdeu massa magra (média de 2,62 kg) e apresentou balanço nitrogenado negativo. As injeções de hormônio do crescimento aumentaram as quantidades de IGF-1 e induziram a perda de gordura visceral. Não houve alteração na liberação de insulina no teste de tolerância a glicose.

Vimos na primeira parte do artigo (GH – atuação) o possível funcionamento do eixo GH/IGF-1, muito se fala da importância deste eixo nas adaptações ao treino de força, justamente procurando verificar esta importância TAAFFE et al, (1994) realizaram um estudo onde os pacientes praticavam musculação por 14 semanas e em seguida recebiam ou GH humano recombinado (0,02 mg/kg/dia) ou placebo durante as 10 semanas seguintes de treinamento. Foram medidas a força máxima, composição corporal e níveis séricos de IGF-1. Inicialmente, as quantidades circulantes de IGF-1 eram baixas nos dois grupos (106 mcg/L, aproximadamente metade do correspondente a jovens saudáveis). Com o tratamento de GH houve aumento de cerca de 100% na quantidade de IGF-1 sérico, ao contrário do grupo controle (218mcg/L contra 119mcg/L), porém não houve influência positiva na força. Apesar da diminuição da massa de gordura e aumento na massa magra nos pacientes tratados com GH, não houve aumento significativo na força.

Outro estudo feito em idosos concluiu que o uso do GH (0,02mg/kg/dia) não provoca aumento na hipertrofia muscular, indo contra a hipótese de que a deficiência no eixo GH-IGF seja causadora de menores respostas ao treinamento em idosos. (TAAFFE et al, 1996).

Os resultados do experimento de YARASHESKI et al (1995) apontam que o treino com pesos aumenta a força e o anabolismo em idosos, porém não há influências positivas do GH nestes resultados, sendo os ganhos de massa magra possivelmente advindos de aumento das proteínas não contráteis e retenção de fluídos. A pesquisa de 16 semanas foi feita em idosos, e incluía musculação (4 x semana) e doses diárias de 12,5 a 14 mcg/kg/dia de GH ou placebo. O interessante é que a administração do hormônio causou, tanto aumento no anabolismo quanto no catabolismo protéico, com os ganhos de força e valores líquidos de síntese protéica sendo similares em ambos os grupos.

Os mesmo YARASHESKI participou em 1997 de outra pesquisa desanimadora para os fãs do GH, agora questionou-se a relação do tratamento com GH (12,5 a 18 mU/kg/dia) na densidade óssea. Neste estudo de 16 semanas aliou-se a administração de GH a exercícios físicos, as variáveis medidas foram a composição corporal, densidade óssea e os níveis séricos de IGF-1. Tanto o grupo que recebeu, quanto o que não recebeu hormônio aumentaram de maneira similar a massa magra, apesar do grupo experimental ter maiores aumentos nos níveis séricos de IGF-1 após o treino. As melhoras na densidade óssea foram semelhantes em ambos os grupos, sugerindo maior turnover ósseo, sem acúmulo de mineral.

HIV-POSITIVOS

Outro grupo onde os efeitos do GH foram bastante estudados é o de portadores do vírus HIV. Nesta linha, SCHAMBELAN et al (1996) avaliaram os efeitos a longo prazo do tratamento com hormônio do crescimento no peso e composição corporal, além da performance funcional. O grupo experimental recebeu 0,1 mg/kg/dia durante doze semanas e o outro grupo recebia apenas placebo. O tratamento com hormônio do crescimento ocasionou ganho de peso e massa magra, com diminuição na massa de gordura, ao contrário do grupo controle, que não teve diferenças relevantes nos resultados.

Como o tratamento prolongado de hormônio do crescimento sai muito dispendioso, PATON et al (1999) direcionaram um experimento ao uso de GH coincidindo com a presença de infecções oportunistas durante duas semanas, onde o objetivo era reduzir a perda de massa muscular em HIV-positivos. Nos pacientes tratados com GH o catabolismo se mostrou 60% menor, com aumento médio de 2,2kg na massa magra e diminuição de 0,7 kg de gordura. Os autores apresentam este tipo de intervenção como relativamente segura e eficiente, com um menor custo financeiro, visto que a terapia só é realizada em períodos curtos.

Mas nem todos os resultados foram animadores, um estudo de 1996 tratou pacientes em estados catabólicos crônicos com rhGH (1,4mg/dia), rhIGF-1 (5 mg 2vezes por dia), ou ambos. Todos os grupos tiveram aumento na massa magra e diminuição na massa de gordura, porém os ganhos foram muito inconstantes e instáveis, levando a conclusão de que as drogas e doses testadas não são recomendadas (WATERS et al, 1996). Mais um estudo nesta linha é o de MOONEY (1999), onde se usou cerca de 6 mg/dia de GH em pacientes portadores do vírus HIV. Ao final das 12 semanas não houve mudanças positivas na musculatura esquelética. Com base em conclusões similares WELLE, (1998), afirma que os efeitos anabólicos do tratamento com GH a longo prazo não justificam a abundante terapia de reposição hormonal.

JOVENS

Mesmo em pacientes jovens com deficiência de GH, nem o uso deste hormônio, nem o de IGF-1 causaram aumentos na força. Apesar de ocorrer aumento na massa magra e redução do percentual de gordura em ambos os casos, o tratamento com GH provocou a maior perda de lipídios, além de diminuição na oxidação de carboidratos e aumento das concentrações de glicose e insulina indicando resistência súbita a esse hormônio. Nem o IGF-1 nem o GH afetaram os fluxos de cálcio, confirmando a hipótese de que nenhum deles é pivô no metabolismo ósseo deste mineral (MAURAS et al, 2000)

Muito bem, já vimos que o uso de hormônio do crescimento para promover aumento de massa muscular em pacientes debilitados é questionável, só isso já seria suficiente para desencorajar o uso deste hormônio em indivíduos saudáveis (se não aumenta massa muscular em estados catabólicos extremos que dirá em organismos normais!!). Ainda assim, acho interessante ressaltar evidências diretas como estudos de YARASHESKI et al, (1992); YARASHESKI et al, (1993) e DEYSSIG, et al, (1998).

YARASHESKI et al (1992) realizaram um experimento para avaliar o efeito do tratamento de GH (40 mcg/kg/dia) no anabolismo muscular associado ao treinamento com pesos durante 12 semanas. Ao final do estudo os autores concluíram que o ganho de massa magra proveniente do tratamento com GH é principalmente devido ao aumento de outros tecidos, que não muscular, portanto o uso deste hormônio não aumenta o anabolismo muscular resultante do treinamento com pesos. O mesmo YARASHESKI, juntamente com outros autores, publicou outra pesquisa no ano seguinte com o mesmo objetivo: avaliar a influência do GH (40 mcg/kg/dia) no anabolismo muscular, só que agora foram verificados os efeitos agudos (14 dias) em levantadores de peso experientes. Novamente os valores de IGF-1 aumentaram (224 para 589 ng/ml) e mais uma vez não houve influência positiva no anabolismo.

O estudo de DEYSSIG foi feito em atletas (0,09 UI/kg;dia), e os autores tiveram o valioso cuidado de controlar o uso de esteróides anabólicos. O GH elevou as concentrações séricas do próprio hormônio, de IGF-1 e da proteína transportadora de IGF-1, além de aumentar a taxa de insulina em jejum e diminuir a da tiroxina. Porém, não houve ganho de força nem melhora na composição corporal, conclusão: os efeitos anabólicos e lipolíticos do tratamento com GH podem depender da massa gorda e da deficiência na produção deste hormônio, sendo ineficiente no caso de jovens saudáveis.

CONCLUSÃO

Apesar de toda propaganda exaltando o GH, não existem justificativas para o uso estético desse hormônio, é incompreensível que a mídia e demais pessoas propaguem tais idéias sobre uma substância ineficiente e demonizem, outros hormônios como os derivados da testosterona. A verdade é que o tratamento a base de esteróides anabólicos, parece ser tão, ou mais, eficiente e segura que a terapia com GH, além é claro, da inegável vantagem econômica.

Como foi visto o eventual aumento de massa magra relacionado ao uso de GH, pouco tem a ver com hipertrofia do tecido muscular, o efeito verificado com mais freqüência é a redução no tecido adiposo, além de relatos isolados de melhora na pele, porém a maioria dos ganhos provenientes da terapia de GH podem ser obtidos com facilidade através de práticas alternativas, as quais dificilmente chegarão às cifras gastas com o GH (mais de 2.000 reais por mês). Outro aspecto a se ressaltar é a freqüente insignificância dos ganhos de força, para muitos isso é mais uma indicação de que não houve aumento nas proteínas contráteis, creio que isto seja outro ponto contra o uso de GH pelo simples fato do aumento de massa magra não acarretar melhoras funcionais no aparelho locomotor, o que deveria ser um aspecto importante de qualquer terapia ou treinamento físico, mesmo com fins estéticos.

Sei que, para variar, minhas opiniões estão indo contra a corrente atual de pensamento, porém não tenho nenhuma obrigação em agradar a mídia e nunca gostei de seguir cegamente dogmas, antes, prefiro analisar criticamente o assunto, formar uma opinião concreta e compartilhá-la com vocês, doa a quem doer.

Bibliografia

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